Tento entender porque razão estás deitado nessa cama mais uma vez. Evitás-te toda a tua vida que ela te chamasse. Tiveste a mesma cama, no mesmo quarto cheio de memórias durante 40 anos. A vida não te trouxe tudo o que sonhavas e, os teus medos, viveram na tua sombra como vizinhos barulhentos cultivando o teu silêncio e indiferença. E foram crescendo na tua cabeça todos os finais possíveis desta tua longa metragem que é a vida. No conforto da tua cadeira, assistis-te a outros desfechos sem dizer uma palavra. Afasta-se o que se quer para que não chegue perto. Não se fala no assunto e ele desaparece. Queria voltar aos dias de sol passados contigo. Voltar ao cheiro do mar, aos dias longos e calmos. Voltar a agarrar-me ao teu braço e deixar-me levar pelo som da tua voz e pelo teu sorriso. Sempre claro e sincero. Sentir o teu perfume e o cheiro a roupa lavada perfeitamente engomada. Mais ninguém tem o teu cheiro. Ouvir-te falar de quando eras pequeno. Histórias dos teus irmãos, do carácter austero do teu pai e da delicadeza da tua mãe. Ouvir-te falar de como cresces-te na tua profissão e de que a tua escolha poderia ter sido outra se o tempo o tivesse permitido. Permitiu mais tarde e talvez tenhas achado que já era outono, tempo de colher não de
semear. Tento entender porque estás deitado nessa cama. Entender o porquê de ao olharmos ambos pela janela, somos do mesmo mundo mas o mundo lá fora fala uma outra língua. Diferente da nossa, que só nós dois entendemos.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Assinar:
Postagens (Atom)